Arquivos do Blog

Os Bispos do Brasil são uma vergonha

Antes de descer a lenha faço uma observação: sou católico, vou a Missa todos os Domingos, confesso pelo menos uma vez a cada mês, rezo, etc. Ou seja: católico praticante.

Feita esta observação agora o pau come, leia o que vai no G1 (dica do @coroneldoblog) e volto a seguir:

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou nota nesta sexta-feira (17) em que afirma que “as decisões sobre o Código Florestal não podem ser motivadas por uma lógica produtivista que não leva em consideração a proteção da natureza, da vida humana e das fontes da vida”. Na nota, os bispos manifestaram preocupação tanto com a amenda 164 quanto com anistia a desmatadores. Segundo o presidente da CNBB, dom Raymundo Damasceno, a Igreja Católica vai apoiar a coleta de assinaturas nas paróquias de todo o país contra as mudanças no código feitas pela Câmara. “Convocamos nossas comunidades a participarem desse processo de aperfeiçoamento do Código Florestal, mobilizando as forças sociais e promovendo abaixo-assinado contra a devastação.” O secretário-geral da CNBB, dom Leonardo Steiner, disse que os bispos vão participar do debate no Senado. “Gostaríamos de fazer um pouco de pressão”, afirmou. Steiner citou como exemplo de pressão feita pela Igreja a coleta de assinaturas para o projeto de iniciativa popular que deu origem à Lei da Ficha Limpa.

É muita falta de vergonha na cara. Para quem não lembra, o Cardeal Dom Odilo Scherer proibiu a distribuição do folheto contra o aborto ano passado na Catedral da Sé (a mesma catedral que foi profanada no tal do plebiscito de estatização da Vale), Dom Orani, que não foi feito Cardeal, também fez ouvidos surdos aos apelos do Papa para que se pronunciasse às vésperas da eleição. Outros importantes bispos e cardeais colocaram o rabo entre as pernas, se omitiram, ignoraram o apelo do Papa e agora vem com esta palhaçada numa questão que nem conseguiram compreender.

Então estamos combinados: aborto = silêncio. Lei justa que faz bem para o Brasil eles são contra e usurpam a estrutura da Igreja Católica para fazer política…

Anúncios

Bento XVI hoje nos transmite uma mensagem de esperança

Lux fulgebit hodie super nos: quia natus est nobis Dominus: et vocabitur Admirabilis, Deus, Princeps pacis, Pater futuri saeculi: cujus regni non erit finis. — Dominus regnavit, decorem indutus est: indutus est Dominus fortitudinem, et praecinxit se. – Is 9,2-6

Ontem dizia que neste Natal, o politicamente correto, quer dizer, o que algumas pessoas pensam que é políticamente correto se transformou numa ditadura de forma que a visão do menino Jesus, o motivo de tanta alegria em todo o Natal, deve ser escondido como uma figura que ultraja os olhos laicistas dos ditadores desta nova religião.

O Jornal Estado de São Paulo ontem publicava uma matéria em que de certa forma celebrava o fato do Menino Jesus ter sido substituido por ursos, veados, cachorros e Shreks.

Neste contexto a mensagem de Natal do Papa Bento XVI é uma luz de extramo fulgor que merece ser lida com carinho e admiração. Copio ela abaixo, os negritos são meus.

Um feliz Natal, que o menino Jesus nascendo neste dia traga paz e alegria a todos os leitores do Corisco, sejam eles católicos, protestantes, judeus, mulçulmanos ou mesmo ateus.

«Verbum caro factum est – o Verbo fez-Se carne» (Jo 1, 14).

Queridos irmãos e irmãs, que me ouvis em Roma e no mundo inteiro, é com alegria que vos anuncio a mensagem do Natal: Deus fez-Se homem, veio habitar no meio de nós. Deus não está longe: está perto, mais ainda, é o «Emanuel», Deus-connosco. Não é um desconhecido: tem um rosto, o rosto de Jesus.

Trata-se de uma mensagem sempre nova, que não cessa de surpreender, porque ultrapassa a nossa esperança mais ousada. Sobretudo porque não se trata apenas de um anúncio: é um acontecimento, um facto sucedido, que testemunhas credíveis viram, ouviram, tocaram na Pessoa de Jesus de Nazaré! Permanecendo com Ele, observando os seus actos e escutando as suas palavras, reconheceram em Jesus o Messias; e, ao vê-Lo ressuscitado, depois que fora crucificado, tiveram a certeza de que Ele, verdadeiro homem, era simultaneamente verdadeiro Deus, o Filho unigénito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade (cf. Jo 1, 14).

«O Verbo fez-Se carne». Fitando esta revelação, ressurge uma vez mais em nós a pergunta: Como é possível? O Verbo e a carne são realidades opostas entre si; como pode a Palavra eterna e omnipotente tornar-se um homem frágil e mortal? Só há uma resposta possível: o Amor. Quem ama quer partilhar com o amado, quer estar-lhe unido, e a Sagrada Escritura apresenta-nos precisamente a grande história do amor de Deus pelo seu povo, com o ponto culminante em Jesus Cristo.

Na realidade, Deus não muda: mantém-se fiel a Si mesmo. Aquele que criou o mundo é o mesmo que chamou Abraão e revelou o seu próprio Nome a Moisés: Eu sou Aquele que sou… o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob… Deus misericordioso e compassivo, cheio de amor e fidelidade (cf. Ex 3, 14-15; 34, 6). Deus não muda: Ele é Amor, desde sempre e para sempre. Em Si mesmo, é Comunhão, Unidade na Trindade, e cada obra e palavra sua tem em vista a comunhão. A encarnação é o ápice da criação. Quando no ventre de Maria, pela vontade do Pai e a acção do Espírito Santo, se formou Jesus, Filho de Deus feito homem, a criação atingiu o seu vértice. O princípio ordenador do universo, o Logos, começava a existir no mundo, num tempo e num espaço.

«O Verbo fez-Se carne». A luz desta verdade manifesta-se a quem a acolhe com fé, porque é um mistério de amor. Somente aqueles que se abrem ao amor, são envolvidos pela luz do Natal. Assim sucedeu na noite de Belém, e assim é hoje também. A encarnação do Filho de Deus é um acontecimento que se deu na história, mas ao mesmo tempo ultrapassa-a. Na noite do mundo, acende-se uma luz nova, que se deixa ver pelos olhos simples da fé, pelo coração manso e humilde de quem espera o Salvador. Se a verdade fosse apenas uma fórmula matemática, em certo sentido impor-se-ia por si mesma. Mas, se a Verdade é Amor, requer a fé, o «sim» do nosso coração.

E que procura, efectivamente, o nosso coração, senão uma Verdade que seja Amor? Procura-a a criança, com as suas perguntas tão desarmantes e estimuladoras; procura-a o jovem, necessitado de encontrar o sentido profundo da sua própria vida; procuram-na o homem e a mulher na sua maturidade, para orientar e sustentar os compromissos na família e no trabalho; procura-a a pessoa idosa, para levar a cumprimento a existência terrena.

«O Verbo fez-Se carne». O anúncio do Natal é luz também para os povos, para o caminho colectivo da humanidade. O «Emanuel», Deus-connosco, veio como Rei de justiça e de paz. O seu Reino – bem o sabemos – não é deste mundo, e todavia é mais importante do que todos os reinos deste mundo. É como o fermento da humanidade: se faltasse, definhava a força que faz avançar o verdadeiro progresso, o impulso para colaborar no bem comum, para o serviço desinteressado do próximo, para a luta pacífica pela justiça. Acreditar em Deus que quis compartilhar a nossa história, é um constante encorajamento a comprometer-se com ela, inclusive no meio das suas contradições; é motivo de esperança para todos aqueles cuja dignidade é ofendida e violada, porque Aquele que nasceu em Belém veio para libertar o homem da raiz de toda a escravidão.

A luz do Natal resplandeça novamente naquela Terra onde Jesus nasceu, e inspire Israelitas e Palestinianos na busca duma convivência justa e pacífica. O anúncio consolador da vinda do Emanuel mitigue o sofrimento e console nas suas provas as queridas comunidades cristãs do Iraque e de todo o Médio Oriente, dando-lhes conforto e esperança no futuro e animando os Responsáveis das nações a uma efectiva solidariedade para com elas. O mesmo suceda também em favor daqueles que, no Haiti, ainda sofrem com as consequências do terramoto devastador e com a recente epidemia de cólera. Igualmente não sejam esquecidos aqueles que, na Colômbia e na Venezuela mas também na Guatemala e na Costa Rica, sofreram recentemente calamidades naturais.

O nascimento do Salvador abra perspectivas de paz duradoura e de progresso autêntico para as populações da Somália, do Darfour e da Costa do Marfim; promova a estabilidade política e social em Madagáscar; leve segurança e respeito dos direitos humanos ao Afeganistão e Paquistão; encoraje o diálogo entre a Nicarágua e a Costa Rica; favoreça a reconciliação na Península Coreana.

A celebração do nascimento do Redentor reforce o espírito de fé, de paciência e de coragem nos fiéis da Igreja na China continental, para que não desanimem com as limitações à sua liberdade de religião e de consciência e, perseverando na fidelidade a Cristo e à sua Igreja, mantenham viva a chama da esperança. O amor do «Deus-connosco» dê perseverança a todas as comunidades cristãs que sofrem discriminação e perseguição, e inspire os líderes políticos e religiosos a empenharem-se pelo respeito pleno da liberdade religiosa de todos.

Queridos irmãos e irmãs, «o Verbo fez-Se carne», veio habitar no meio de nós, é o Emanuel, o Deus que Se aproximou de nós. Contemplemos, juntos, este grande mistério de amor; deixemos o coração iluminar-se com a luz que brilha na gruta de Belém! Boas-festas de Natal para todos! Leia o resto deste post

Dando nome aos bispos (III) – Dom Odilo Scherer

Neste apanhado (parte 1 e parte 2) que faço, nomeando os Bispos brasileiros que não seguiram a indicação claríssima de Bento XVI para que orientassem os fiéis em matéria política, principalmente quando estivesse em jogo a vida humana, chegou o momento de falar dos Cardeais brasileiros.

Hoje vamos falar de Dom Odilo Scherer, um bispo jovem (61 anos) e cardeal há três anos. Dom Odilo foi dos que se omitiu, posso dizer isto com enorme tranquilidade pois é a mais pura verdade.

Quando começou a circular o tema do aborto na campanha e vários bispos lançaram um texto aprovado pela Regional Sul 1 da CNBB condenando, entre outras coisas, o Partido dos Trabalhadores pelo apoio ao PNDH3 e pela expulsão de deputados que haviam se manifestado contra o aborto, Dom Odilo publicou uma nota em que dizia que tomar partido nas eleições era algo que dividia a comunidade (como se Cristo não tivesse sido um sinal de contradição: Lc 12, 53) e que portanto os padres se abstivessem de dar conselhos nesta linha. Que aconselhassem os fiéis a seguir sua consciência cristã.

Até este momento Dom Odilo exercia seu papel de pastor, de acordo com sua consciência, talvez alguns achassem-no pusilânime, mas estava dentro dos limites do que poderiamos chamar de opinável. Vale lembrar, no entanto, que Dom Odilo não quis que se fizesse uma passeata contra o aborto saindo da Sé enquanto várias vezes a mesma Catedral foi usada pelos adeptos da teologia da libertação para suas palhaçadas.

No entanto, quando o Papa falou, e fez um apelo claríssimo aos Bispos brasileiros, mais claro como nunca se viu na história do Brasil, o silêncio que saiu da Arquidiocese de São Paulo foi ensurdecedor.

Um amigo que dirige um movimento pró-vida diz, e eu acredito piamente nele, que Dom Odilo foi lembrado dezenas de vezes através de telefonemas e e-mails do seu dever de pastor à luz do que havia dito o Santo Padre; no entanto Dom Odilo se calou. Depois de muita importunação se publicou a mensagem do Papa no site da Arquidiocese e um texto dizendo que Dom Odilo já havia orientado seus fiéis a votarem de acordo com sua consciência …

Em defesa de Dom Odilo pode-se aduzir que talvez tenha sentido medo, afinal São Paulo foi uma cidade em que a teologia da libertação encontrou berço fértil durante muitos anos, ou que no calor do momento não conseguiu compreender bem o alcance da mensagem do Papa. No entanto os fiéis da Arquidiocese de São Paulo esperam uma retificação, esperam que ele observe outros irmãos seus no episcopado que deram a cara a tapa e considere o alcance que pode ter a sua omissão.

Dando nome aos Bispos (II) – Dom Luiz Demétrio Valentini

Um dos posts mais vistos da semana passada é o Dando nome aos Bispos (I) onde estamos comentando os Bispos que ignoraram a indicação do Santo Padre e dos que foram frontalmente contra ela.

As nomeações e renúncias de Bispos ocorrem todo dia e podem ser consultadas pelo Vatican Information Service. As do Brasil costumam ser às quartas-feiras, portanto pode ser que amanhã tenhamos outras surpresas.

De qualquer maneira, hoje queria falar do Bispo de Jales no interior de São Paulo, Dom Luiz Demétrio Valentini. Pode-se dizer, lendo seus escritos, que foi um grande apoiador da campanha do PT e um dos que ignoraram a questão do apoio ao Aborto declarado por este mesmo partido como mostramos na parte I desta série.

É um mysterium iniquitatis tentar entender a posição deste Bispo, principalmente para os que não somos eclesiásticos e nem estamos engajados em movimentos pastorais. No entanto, um olhar na página da diocese de Jales fez com que compreendêssemos um pouco como se chegou a tamanha cegueira.

Olhando as fotos oficiais dos Padres da Diocese, que juntamos num mosaico para facilitar a compreensão do fenômeno, vemos que a questão da veste que distingue o sacerdote não é utilizada nem mesmo para a foto oficial que vai para o site, com duas exceções. Não que a veste eclesiástica seja um sinal absoluto da vida espiritual e pastoral do sacerdote, mas dá pistas de como andam as coisas.

Além disso, agrupando os escritos do senhor Bispo de Jales, num arquivo PDF, para que possam ver o tom dos discursos onde o espiritual raramente comparece; cada um dos leitores pode ter mais luzes para ver que naquele ambiente dificilmente as palavras do Santo Padre teriam eco.

O Bispo de Jales tem hoje 70 anos. Teoricamente tem mais cinco anos a frente da Diocese, no entanto, vendo os acontecimentos de quarta-feira passada talvez possamos crer que, a menos que ocorra uma guinada espiritual em sua diocese, este tempo pode ser bem mais curto.

Dando nome aos Bispos (I) – Dom Luiz Carlos Eccel

Conforme prometido anteriormente chegou a hora de dar nome aos Bispos que se omitiram diante da indicação do Papa com relação ao Aborto ou que fizeram justamente o contrário.

Não nos cabe julgar mas apresentar fatos e permitir que você leitor chegue a uma conclusão.

No dia 2 de Novembro publicamos um texto que falava que a maioria dos Bispos ignorou o apelo do Santo Padre para orientar os fiéis em matéria política quando estivesse em jogo a defesa da vida, em especial o aborto.

Acontece que nem todos ignoraram, Dom Luiz Carlos Eccel decidiu orientar seus fiéis segundo sua cabeça: Bispo de Caçador divulga apoio a Dilma.

A seguir, o bispo afirma que Lula “tem defendido a vida, e sempre se pronunciou contra o aborto. Nesses últimos anos o Brasil tem crescido e melhorado em todos os aspectos, de maneira especial no respeito à vida e a valorização da dignidade humana. Esta é a Vontade de Deus! E as pessoas, em plena posse de suas faculdades mentais, vão
reconhecer esta verdade.”

Considerando o vídeo abaixo parece que Dom Luiz não entendeu o que o Papa falou ou decidiu fazer justamente o contrário: apoiar quem é a favor do aborto.

A resposta do Papa, pelo menos é minha leitura, veio hoje (24/11/2010) num comunicado da Sala de Imprensa do Vaticano: “Il Santo Padre Benedetto XVI ha accettato la rinuncia al governo pastorale della diocesi di Caçador (Brasile), presentata da S.E. Mons. Luiz Carlos Eccel, in conformità al can. 401 § 2 del Codice di Diritto Canonico.

Que podemos traduzir como: O Santo Padre Bento XVI aceitou hoje a renúncia al governo pastoral da diocese de Caçador, SC, Brasil, apresentada por Dom Luiz Carlos Eccel, em conformidade com o cânon 401 § 2 do Código de Direito Canônico.

E o que diz o Cânon 401§ 2 do Código de Direito Canônico?

Cân.  401  § 1. O Bispo diocesano, que tiver completado setenta e cinco anos de idade, é solicitado a apresentar a renúncia do ofício ao Sumo Pontífice, que, ponderando todas as circunstâncias, tomará providências.

§ 2. O Bispo diocesano que, por doença ou por outra causa grave, se tiver tornado menos capacitado para cumprir seu ofício, é vivamente solicitado a apresentar a renúncia do ofício.

A CNBB divulgou uma nota dizendo que o Bispo se afasta para cuidar de sua saúde. Esperamos que Dom Luiz, que completou 58 anos no último dia 18/11 recupere a saúde em todos os sentidos e que medite com vagar nos conselhos que o Santo Padre deu aos Bispos do Maranhão e do Brasil.

Dilma, o aborto e os Bispos que se calaram

Vejam o vídeo abaixo se ainda não viram:

Ainda não chegou o momento de dar nome aos bois, quer dizer aos Bispos, mas espero que ainda esta semana seja possível escrever a respeito.

Convém notar que a visita ad limina dos Bispos do Maranhão ao Papa terminava no sábado dia 30/10 e o Papa quis antecipar o discurso para 28/10. Porque será que o Papa quis antecipar o discurso? Será que não estava mandando aos Bispos brasileiros o recado mais claro possível de que havia chegado a hora de se manifestarem de maneira clara?

Agora vejam o que o governo publicou no diário oficial um dia depois do primeiro turno das eleições (04/10): “Objetivo: descriminalizar o aborto até Fev/2011“. E agora senhores Bispos que não ouviram a voz do Sumo Pontífice?

Discurso do Papa foi ignorado pela maioria dos Bispos

Vatican. Pope Benedict XVI.

Image via Wikipedia

Este post é para um registro histórico, mais para frente daremos nome aos bois, quer dizer aos Bispos.

Segue o discurso completo do dia 28/10/2010, grifos são meus, para ajudar aos Bispos que não conseguiram ou não quiseram entender o texto.

Amados Irmãos no Episcopado, «Para vós, graça e paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo» (2 Cor 1, 2). Desejo antes de mais nada agradecer a Deus pelo vosso zelo e dedicação a Cristo e à sua Igreja que cresce no Regional Nordeste 5. Lendo os vossos relatórios, pude dar-me conta dos problemas de caráter religioso e pastoral, além de humano e social, com que deveis medir-vos diariamente. O quadro geral tem as suas sombras, mas tem também sinais de esperança, como Dom Xavier Gilles acaba de referir na saudação que me dirigiu, dando livre curso aos sentimentos de todos vós e do vosso povo. Como sabeis, nos sucessivos encontros com os diversos Regionais da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, tenho sublinhado diferentes âmbitos e respectivos agentes do multiforme serviço evangelizador e pastoral da Igreja na vossa grande Nação; hoje, gostaria de falar-vos de como a Igreja, na sua missão de fecundar e fermentar a sociedade humana com o Evangelho, ensina ao homem a sua dignidade de filho de Deus e a sua vocação à união com todos os homens, das quais decorrem as exigências da justiça e da paz social, conforme à sabedoria divina. Entretanto, o dever imediato de trabalhar por uma ordem social justa é próprio dos fiéis leigos, que, como cidadãos livres e responsáveis, se empenham em contribuir para a reta configuração da vida social, no respeito da sua legítima autonomia e da ordem moral natural (cf. Deus caritas est, 29). O vosso dever como Bispos junto com o vosso clero é mediato, enquanto vos compete contribuir para a purificação da razão e o despertar das forças morais necessárias para a construção de uma sociedade justa e fraterna. Quando, porém, os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas o exigirem, os pastores têm o grave dever de emitir um juízo moral, mesmo em matérias políticas (cf. GS, 76). Ao formular esses juízos, os pastores devem levar em conta o valor absoluto daqueles preceitos morais negativos que declaram moralmente inaceitável a escolha de uma determinada ação intrinsecamente má e incompatível com a dignidade da pessoa; tal escolha não pode ser resgatada pela bondade de qualquer fim, intenção, conseqüência ou circunstância. Portanto, seria totalmente falsa e ilusória qualquer defesa dos direitos humanos políticos, econômicos e sociais que não compreendesse a enérgica defesa do direito à vida desde a concepção até à morte natural (cf. Christifideles laici, 38). Além disso no quadro do empenho pelos mais fracos e os mais indefesos, quem é mais inerme que um nascituro ou um doente em estado vegetativo ou terminal? Quando os projetos políticos contemplam, aberta ou veladamente, a descriminalização do aborto ou da eutanásia, o ideal democrático – que só é verdadeiramente tal quando reconhece e tutela a dignidade de toda a pessoa humana – é atraiçoado nas suas bases (cf. Evangelium vitæ, 74). Portanto, caros Irmãos no episcopado, ao defender a vida «não devemos temer a oposição e a impopularidade, recusando qualquer compromisso e ambigüidade que nos conformem com a mentalidade deste mundo» (ibidem, 82). Além disso, para melhor ajudar os leigos a viverem o seu empenho cristão e sócio-político de um modo unitário e coerente, é «necessária — como vos disse em Aparecida — uma catequese social e uma adequada formação na doutrina social da Igreja, sendo muito útil para isso o “Compêndio da Doutrina Social da Igreja”» (Discurso inaugural da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, 3). Isto significa também que em determinadas ocasiões, os pastores devem mesmo lembrar a todos os cidadãos o direito, que é também um dever, de usar livremente o próprio voto para a promoção do bem comum (cf. GS, 75). Neste ponto, política e fé se tocam. A fé tem, sem dúvida, a sua natureza específica de encontro com o Deus vivo que abre novos horizontes muito para além do âmbito próprio da razão. «Com efeito, sem a correção oferecida pela religião até a razão pode tornar-se vítima de ambigüidades, como acontece quando ela é manipulada pela ideologia, ou então aplicada de uma maneira parcial, sem ter em consideração plenamente a dignidade da pessoa humana» (Viagem Apostólica ao Reino Unido, Encontro com as autoridades civis, 17-IX-2010). Só respeitando, promovendo e ensinando incansavelmente a natureza transcendente da pessoa humana é que uma sociedade pode ser construída. Assim, Deus deve «encontrar lugar também na esfera pública, nomeadamente nas dimensões cultural, social, econômica e particularmente política» (Caritas in veritate, 56). Por isso, amados Irmãos, uno a minha voz à vossa num vivo apelo a favor da educação religiosa, e mais concretamente do ensino confessional e plural da religião, na escola pública do Estado. Queria ainda recordar que a presença de símbolos religiosos na vida pública é ao mesmo tempo lembrança da transcendência do homem e garantia do seu respeito. Eles têm um valor particular, no caso do Brasil, em que a religião católica é parte integral da sua história. Como não pensar neste momento na imagem de Jesus Cristo com os braços estendidos sobre a baía da Guanabara que representa a hospitalidade e o amor com que o Brasil sempre soube abrir seus braços a homens e mulheres perseguidos e necessitados provenientes de todo o mundo? Foi nessa presença de Jesus na vida brasileira, que eles se integraram harmonicamente na sociedade, contribuindo ao enriquecimento da cultura, ao crescimento econômico e ao espírito de solidariedade e liberdade. Amados Irmãos, confio à Mãe de Deus e nossa, invocada no Brasil sob o título de Nossa Senhora Aparecida, estes anseios da Igreja Católica na Terra de Santa Cruz e de todos os homens de boa vontade em defesa dos valores da vida humana e da sua transcendência, junto com as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens e mulheres da província eclesiástica do Maranhão. A todos coloco sob a Sua materna proteção, e a vós e ao vosso povo concedo a minha Benção Apostólica.