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Serra x Haddad e a incompetência de um “marketeiro”

Há muito tempo não escrevo neste espaço e, apesar dos bons ventos que sopram do STF, confesso que estou meio desanimado com a perspectiva da política no Brasil.

Confirmadas as pesquisas mais recentes, o “micador” de ENEMs, Fernando Haddad, será eleito pelo povo de São Paulo como prefeito.

No meio do julgamento do mensalão, governando o Estado de São Paulo, o PSDB pode sair derrotado da maior cidade do Brasil.

E de quem é a culpa? Em primeiro lugar, caso o desastre se concretize, de Luiz Gonzalez o pluri-derrotado marketeiro de Serra. Em segundo lugar do próprio José Serra que parece estar dando mais ouvidos a Gonzalez que à razão. Em terceiro lugar ao prefeito Kassab, que não teve força para se defender do assalto petralha à capital do estado, parece que estava mais preocupado em rachar o DEM.

Espero que nos poucos dias que faltam Serra consiga virar o jogo, não é impossível, mas é bastante difícil.

 

 

Um vermelho e azul com Bresser Pereira

Seguindo os passos do mestre Reinaldo, vou tentar aqui um vermelho e azul com o artigo do ex-ministro de José Sarney, Bresser Pereira na Folha de São Paulo de hoje: Dois males afinal evitados.

O artigo causou alvoroço na esgotosfera petralha, afinal para eles a glória é um ex-ministro do Sarney que também foi ministro de menor importância sob FHC falando mal do PSDB.

Bom, ele vai em vermelho e Corisco em azul.

As eleições do último domingo foram livres e democráticas. Foram próprias de uma democracia consolidada, porque o Brasil conta com uma grande classe média de empresários e de profissionais e com uma classe trabalhadora que participa dos ganhos de produtividade.
Porque conta com um sistema constitucional-legal dotado de legitimidade e garantido por um Estado moderno, que é efetivo em garantir a lei e crescentemente eficiente em gerir os serviços sociais e científicos que permitem reduzir a sua desigualdade.

É bem verdade que a justiça eleitoral brasileira foi razoavelmente competente, no entanto está longe de ser esta maravilha, este provedor do estado moderno de que fala o ex-ministro da economia do Sarney. Talvez comparado com o estado que havia quando ele lançou mais um plano maluco economico que nos jogou no fundo da fossa a coisa melhorou um pouco. No entanto os abusos perpetrados pelo presidente-cabo-eleitoral não deixam margem a dúvidas de que estamos ainda mergulhados no atraso democrático.

É verdade que os dois principais candidatos não conseguiram desenvolver um debate que oferecesse alternativas programáticas e ideológicas claras aos eleitores. Por isso, a grande maioria dos analistas os criticou. Creio que se equivocaram.
O debate não ocorreu porque a sociedade brasileira é hoje uma sociedade antes coesa do que dividida. Sem dúvida, a fratura entre os ricos e os pobres continua forte, como as pesquisas eleitorais demonstraram. Mas hoje a sociedade brasileira é suficientemente coesa para não permitir que candidatos com programas muito diferentes tenham possibilidades iguais de serem eleitos -o que é uma coisa boa.

Não concordo. Não vou comentar para não perdermos o foco.

Os dois males que de fato rondaram as eleições de 31 de outubro foram os males do udenismo moralista e potencialmente golpista e o da americanização do debate político.

Viajou na maionese total. Atribuir a UDN os dois adjetivos acima é um reducionismo histórico ridículo e que demonstra uma enorme falta de cultura política.

Quando setores da sociedade e militantes partidários afirmaram que a candidata eleita representava uma ameaça para a democracia, para a Constituição e para a moralidade pública, estavam retomando uma prática política que caracterizou a UDN (União Democrática Nacional), o partido político moralista e golpista que derrubou Getulio Vargas em 1954.

Epa! Parou. UDN é um partido moralista e golpista que derrubou Getúlio em 1954. Afirmação falsa, burra e tendenciosa, não necessariamente nesta ordem. Quem derrubou Getúlio Vargas foi ele mesmo, com um tiro calibre 32 que desferiu em seu próprio peito. Carlos Lacerda nunca violou a lei. Exerceu seu direito de crítica através da imprensa e dos dons de oratória que Deus lhe deu. Se alguém violou a lei foram os homens de Getúlio que tentaram matar Lacerda na Rua Tonelero.

Não há nada mais antipolítico ou antidemocrático do que esse tipo de argumento e de prática. As três acusações são gravíssimas; se fossem verdadeiras -e seus proponentes sempre acham que são- justificam o golpe de Estado preventivo. Felizmente a sociedade brasileira teve maturidade e rejeitou esse tipo de argumento.

Ninguém falou em golpe. As práticas anti-democráticas do PT estão incluídas no plano que Dilma rubricou mas não tragou e no PNDH-3. O manifesto em defesa da democracia que reuniu mais de 100.000 pessoas é prova de que a sociedade num gesto pacífico estava denunciando os movimentos chavistas do PT.

Quanto ao mal da americanização da política, entendo por isso a mistura de religião com política em um país moderno.
Os Estados Unidos, que no final da Segunda Guerra Mundial eram o exemplo de democracia para todo mundo, experimentaram desde então decadência política e social que teve como uma de suas características a invasão da política por temas de base religiosa como a condenação do aborto.
De repente um candidato passa a ser amigo de Deus ou do diabo, dependendo de ser ele “a favor da vida” ou não. A separação entre a política e a religião -a secularização da política- foi um grande avanço democrático do século 19. Voltarmos a uni-las, um grande atraso, a volta à intolerância.
A sociedade brasileira resistiu bem às duas ameaças. E a democracia saiu incólume e reforçada das eleições.
Em seu discurso após a eleição, Dilma Rousseff reafirmou seu compromisso com os pobres, ao mesmo tempo em que se dispôs a realizar uma política de conciliação, não fazendo distinção entre vitoriosos e vencidos.
Estou seguro que será fiel a esse compromisso, como o foram os últimos presidentes. Nossa democracia o exige e permite

A questão do aborto é sim, uma questão política. Uma questão onde combatem duas formas de ver a vida humana. Uma que respeita a vida humana desde a sua concepção e outra na qual a vida do nascituro pode ser tirada desde que isto seja conveniente para a mãe. É uma questão política legítima e deveria ter sido mais explorada.

Com relação ao estado laico, a discussão em torno ao aborto está longe de ser uma discussão religiosa. É uma discussão humanista onde um lado defende a preservação da vida de inocentes e o outro lado acha que isto é relativo.

A esgotosfera pode ficar tranquila. Se ficam felizes de ver um cara que foi ministro do governo FHC criticar uma visão de mundo que muitas pessoas que votaram no PSDB tem isto é uma prova do vigor democrático que defendemos.

O Bresser Pereira é livre para falar o que quiser na sociedade que defendemos, inclusive estupidezes.

P.S. – O Blog Coturno Noturno foi minha inspiração original para expandir este tema.